Sierra Morena

Sim, eu confesso: é um diário. Ah, eu posso ser um pouco bobo se quiser, não é? Além do mais, não sei se alguém vê o que vejo no cotidiano. Vejo tanta coisa, qua faz pena deixar ir. Guardo então cá, essas impressões da minha vida. Afinal, uma aranha que parece jóia, é uma jóia de fato...

7.9.06

Laurinda

— Ó Laurinda linda, linda,
Ó Laurinda linda, linda,
És mais linda do que ó Soli,
Deixa-me dormir uma noite
Nas dobras do teu lençol!

— Sim, sim, cavalheiro sim,
Sim, sim, cavalheiro sim,
Hoje sim, amanhã não,
Mê marido nã está cá,
Foi prá feira de Granão.

Onze horas, meia noiti,
Onze horas, meia noiti,
Marido à porta bateu,
Batê uma, batê duas,
Laurinda nã respondeu.

— Ó ela está doentinha,
Ó ela está doentinha,
Ó já tem outro amore,
Ó então pracura a chavi
Lá no mei’ do corridor.

— De quem é este chapéu?
De quem é este chapéu?
Dabruado a galão?
— É para ti mê marido,
Que fiz eu por minha mão.

— De quem é aquele cavalo?
De quem é aquele cavalo?
Que na minha esquadra entrou?
— É para ti mê marido,
Foi teu pai quem te mandou.

— De quem é aquele suspiro?
De quem é aquele suspiro?
Que ao meu leito se atirou?
Laurinda que aquilo ouviu,
Aí no chão desmaiou.

— Ó Laurinda linda, linda,
Ó Laurinda linda, linda,
Não vale a pena desmaiar,
Todo o amor que t' eu tinha
Vai-se agora a acabar.

— Vai buscar as tuas irmãs,
Vai buscar as tuas irmãs,
Trá-las todas num andor,
E a mais linda delas todas,
Há-de ser o meu Amor!


Nota: Cantiga medieval ibérica, recolhida esta versão em Portugal no século XIX.

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